Esperara ansiosamente por uma ligação. Desde que se separaram, ou melhor, desde que ela o deixara, sempre pensou que receberia uma chamada inesperada no celular. Talvez não tão breve quanto pensara, claro. Poderia demorar dias, semanas, meses, anos, mas uma coisa era fato: ela ligaria.Chovia bastante naquela tarde de setembro. Mesmo encharcados pelo volume de água, decidiram dar uma passada na livraria perto de casa. Ele, sempre muito preocupado com os livros, não percebera que havia algo de diferente nela. Seu olhar já não era mais o mesmo. “Vou levar esses dois. O que acha?”. “Pode ser, faz tempo que você não compra nada aqui mesmo.” retrucou ela, sem dar muita importância. “Depois podemos passar na padaria e comprar aqueles sonhos que você tanto gosta.” Ele esperou um sorriso, mas, inacreditavelmente, não veio. “Sim”, respondeu ela, meio sem jeito.
Era tarde da noite quando o telefone tocou. Acabara de ver um filme e se preparara para mais uma noite de insônia. Puxou o celular e se deparou com um número restrito. Sempre tivera dúvidas sobre este tipo de ligação, ainda mais aquela hora, quase 2h da madrugada. Tocara apenas três vezes. Não dera muito tempo para pensar em alguma coisa. Subira as escadas e, antes de alcançar o último degrau, imaginou se poderia ser realmente ela. Não, sempre dormira muito cedo e, às vezes, mal conseguira assistir a um único filme inteiro. Besteira.
Saíram da padaria com três sonhos. A grana estava curta, foi o que deu para comprar. Colocou o pacote dentro de uma sacola de supermercado, pois ainda chovia. Não com a mesma intensidade, mas certamente poderia molhar bastante. “Vou tomar um banho quente”, disse ela assim que chegaram em casa. “Claro. Enquanto você relaxa, preparo nosso chá e dou uma ajeitada na cozinha. Não sabia explicar o que sentira naquele momento, entretanto, compreendera que havia algo errado ali.
Como sempre, acordara bem tarde, após uma longa noite de filmes, chá e música. Por um momento imaginara que a ligação não existira. Errado. O número permanecera no telefone. Por sorte, a conhecia muito bem, após anos de convivência. Sabia que, se fosse ela, por ser uma pessoa metódica, ligaria novamente às 2h da madrugada, com os mesmos três toques. A noite finalmente chegou. Não foi capaz de fazer nada até o horário estipulado.
“Qual o seu problema? Será que não consegue ser feliz?”, declarou ele quando ela saiu do banho, ainda enxugando o cabelo com uma toalha branca. “Lá vem você com esse papo de novo. Não é uma questão de felicidade ou infelicidade...”, disse ela. “Vamos viver, isso não e o bastante para você? Para que essa cobrança toda?”, finalizou. Puxou-a pelo braço e, sem hesitar, disse: “Você tem outro, não tem? Vai, fala logo.” Com toda frieza do mundo, respondeu: “Você é patético. Tornou-se o que eu mais desprezo nos seres humanos. Tudo aquilo que pensara ter encontrado em ti não serviu para nada.” Vestiu-se rapidamente e bateu a porta. Não levou nada, apenas a bolsa vermelha e um caderninho que usava para anotações.
O relógio da parede da sala mal marcara o horário previsto, quando o celular tocou. Ainda faltavam 5 minutos para às 2h da manhã. Deixou dar o segundo toque para atender, afinal não queria demonstrar que esperara pela ligação. “Alô”, disse com a voz um pouco trêmula. Não obteve resposta e após alguns segundos a ligação caiu. Pensara em muitas coisas depois do ocorrido. “Será que minha voz atrapalhou. Vai ver ela pensou que estivera dormindo, que não a amo ou, quem sabe, que estivera com outra pessoa”. Passou a esperar por sua ligação todas as noites. Não saia de casa naquele horário, não dormia e muito menos arrumava alguém. Elaborara estratégias mirabolantes para ouvir sua voz. Tivera convicção que era realmente ela.
Com o passar do tempo, desistira de tentar ouvir sua voz. Era mais uma espécie de desabafo, de tormento, que qualquer outra coisa. A pessoa também não desligará o telefone rapidamente. Aprendera a escutá-lo.
Por longos 10 anos foi isso que aconteceu. Sempre recebera a ligação por volta das 2h. Até chegara a desconfiar que não fosse ela. Poderia ser simplesmente alguém disposto a ouvi-lo, que, na solidão da noite, também esperara por uma ligação, mas foi à frente e discou qualquer número. No entanto, para ele, era mais confortável manter o mesmo pensamento: ela o amara, mas era incapaz de dizer algo, de pedir desculpas. A ele, portanto, só cabia esperar a ligação e relatar com angústia o rumo que sua vida tomara sem ao menos dar-lhe outra oportunidade.
