Seu mundo

Acordara banhado de suor. Já era bem tarde. Tinha fortes dores no corpo. Decidiu ficar na cama por mais algumas horas. Quem sabe assim aquele sentimento horrível iria para bem longe. Não queria levantar. Estava cansado do mundo, das pessoas, do convívio em sociedade.

Do seu leito podia fazer as coisas como queria, como sempre planejara. Atribuía à vida sua própria interpretação. Não precisava de alguém para lhe dar ordens e dizer o que é certo ou errado. Naquele cantinho, podia cantarolar, reinventar o mundo, esquecer os preconceitos, acabar com as diferenças, amar, ser amado e, por um único momento, esquecer dos seres humanos.

Acreditara veemente na falta de capacidade das pessoas. Estava cansado dos diálogos imprecisos, tudo era completamente descartável. Pensara que o mundo passava por uma enorme crise. O problema, certamente, não era com ele, mas com os indivíduos. A tecnologia avançou tanto, o acesso à informação era tão veloz, que os humanóides se esqueceram de evoluir mentalmente, de perceberem suas limitações.

Ali, no seu cantinho, tudo era diferente. As coisas eram reconstruídas passo a passo, sem apego material, sem restrições ou verdades absolutas. Ali, naquele mesmo cantinho, via o mundo de outra forma, com seus próprios olhos. Julgava e questionava com uma visão subjetiva e libertária.

Não queria que ninguém se intrometesse. O acesso era restrito, muito restrito. Tinha consciência que a entrada de algumas pessoas poderia contaminar o espaço que criara. Proibiu a entrada dos limitados. Depois, abominou a presença dos hipócritas. Por último, restringiu o acesso dos incapazes de amar. Era simplesmente seu mundo, sua maneira, seus sentimentos.

Saudades...

Analiticamente falando, são três as variáveis da saudade. A primeira delas, talvez a mais genuína, porém rara de ser alcançada, é aquela similar a um sentimento bom. Quando você sente falta de algo, recorda-se positivamente das coisas, mas, por instinto, não quer que aquilo volte a acontecer. Acredita que, de tão pura, de tão saudável, o passado seja o lugar propício para deixá-la guardada. Há, indubitavelmente, a saudade que aperta a garganta, que, de tão latente, profunda, fere seu coração. Você, mais do que tudo, precisa ter novamente, no entanto, sabe que não terá, afinal, já passou. Muitas vezes acaba se crucificando. Pede a Deus uma nova chance de reviver, de aproveitar melhor. O nível de egoísmo do ser humano reserva ainda outra variável. Trata-se da mais cruel e impetuosa. É a saudade daquilo que, de fato, não aconteceu. Ora, isso quebra a ordem natural das coisas. Sentir falta de momentos que não chegaram ao fim. De tanto criar ilusões, de tanto desprezar o que se tem, sofre por antecipação. Não dá a chance de aproveitar os momentos reais até o último instante para assim transformá-los na primeira variável da saudade, a chamada positiva. Essa talvez seja a saudade mais difícil de suportar.

A fobia social


Nunca tivera tanto medo de sua mente como naquele dia. A raiva tomara conta de si. As pessoas com quem vivera já não o compreendiam. As que nunca tinham visto seu rosto também não eram suficientes para amenizar tantos momentos de angústia.

O médico não dera outra opção. O diagnóstico foi certeiro: “És uma doença rara. Cientistas do mundo todo tentam há anos descobrir a cura, mas nunca chegaram a algo relevante. O Sr. ficará trinta dias sem nenhum contato. Deve permanecer isolado. Qualquer tipo de relação pode piorar seu estado e trazer consequências irreparáveis”.

A princípio, não se importou. Precisará mesmo ficar sozinho, afinal, foram três fortes crises em menos de duas semanas. Sua mente não suportara o convívio em sociedade. Sabia que somente as recomendações médicas podiam surtir algum efeito.

Escolhera uma casinha na Rua do Encomendador, na região norte. O vento lá soprara com uma intensidade desproporcional para a época. Talvez isso lhe trouxesse bons ares.

Todos haviam se mudado dali desde que a ventania passou a ser algo constante na vida da população.
O abrigo escolhido não era lá grande coisa. Um armário com algumas roupas, uma cafeteira e um caderno em branco.

Todos os dias de isolamento seriam relatados naquele pequeno pedaço de brochura. Nunca o mês de abril parecera ser tão longo.

O bilhete

Estava decidido. Colocou tudo que precisava na mala e a fechou sem qualquer tipo de medo ou arrependimento. Iria mesmo partir naquela tarde. Sempre admirou o mês de abril, aquele em que começa o outono, termina o verão e tudo torna-se um pouco mais real. Escolheu aquilo, pois não queria mais ilusão ou utopia.

Na bagagem, quatro camisas xadrez, uma bermuda surrada e um velho aparelho de mp3. Separou alguns livros, que não pudera ler por falta de tempo e seu melhor amigo: o inseparável violão.
Antes, no entanto, não podia sair sem escutar aquela música, a sua música. Pegar a estrada sem ouvi-la era como se estivesse fugindo de sua penitência.

Ligou o som, cantou, chorou: passara anos decorando minuciosamente cada estrofe. Deixou o aparelho ligado no último volume para não se esquecer.
Não sabia o destino, o que iria fazer ou, sequer, quando tempo demoraria para voltar. Apenas tinha em mente que precisava ir. Aquela vida não fazia mais sentido: o emprego, a faculdade, a namorada. Não queria nada.

Começaria do zero. Apenas ele, o mar, e as poucas coisas que não conseguia viver sem.
No bolso esquerdo da blusa branca que usava, um recado:


“Volte, por favor. Ligue assim que puder.
Eu te amo”.