Carta aos desesperados

Escrever no silêncio da madrugada foi a única forma que encontrei para aliviar a dor latente de minha inquietante alma. Jogar as palavras assim, meio sem jeito, de maneira desconexa, tornou-se aos poucos o melhor remédio. É como se acumulasse os problemas do mundo sobre meus ombros e, ao redigir, todos eles fossem solucionados.

Sinto-me como um redator de sentimentos, que, com palavras, gestos e olhares acumulados, transcreve os anseios do mundo. Absorvo cada uma das sensações. Arrisco-me a dizer que sinto algumas delas. Quando já não suporto mais tamanha sensibilidade, despejo o conteúdo em palavras simples, em frases curtas, em posicionamentos contraditórios.

Escrever sobrecarregado nunca foi um problema. Muito pelo contrário, sempre foi a solução. Talvez o gesto mais nobre que a vida me concedeu para me manter vivo. Um presente escolhido a dedo com o intuito de retribuir minha existência.

Não sentir com a mesma intensidade significa não ter uma razão para existir.

Isso, até certo ponto, tem acontecido com frequência. Talvez tenha perdido esta habilidade. Porém, enquanto existir uma pontinha de sensibilidade, enquanto localizar olhares desesperados no meio da frenética multidão e enquanto enxergar rostos ávidos por uma simples palavra, continuarei a escrever.

Tens aqui minha palavra. Tens aqui mais um texto assinado por mim.

A ligação

Esperara ansiosamente por uma ligação. Desde que se separaram, ou melhor, desde que ela o deixara, sempre pensou que receberia uma chamada inesperada no celular. Talvez não tão breve quanto pensara, claro. Poderia demorar dias, semanas, meses, anos, mas uma coisa era fato: ela ligaria.

Chovia bastante naquela tarde de setembro. Mesmo encharcados pelo volume de água, decidiram dar uma passada na livraria perto de casa. Ele, sempre muito preocupado com os livros, não percebera que havia algo de diferente nela. Seu olhar já não era mais o mesmo. “Vou levar esses dois. O que acha?”. “Pode ser, faz tempo que você não compra nada aqui mesmo.” retrucou ela, sem dar muita importância. “Depois podemos passar na padaria e comprar aqueles sonhos que você tanto gosta.” Ele esperou um sorriso, mas, inacreditavelmente, não veio. “Sim”, respondeu ela, meio sem jeito.

Era tarde da noite quando o telefone tocou. Acabara de ver um filme e se preparara para mais uma noite de insônia. Puxou o celular e se deparou com um número restrito. Sempre tivera dúvidas sobre este tipo de ligação, ainda mais aquela hora, quase 2h da madrugada. Tocara apenas três vezes. Não dera muito tempo para pensar em alguma coisa. Subira as escadas e, antes de alcançar o último degrau, imaginou se poderia ser realmente ela. Não, sempre dormira muito cedo e, às vezes, mal conseguira assistir a um único filme inteiro. Besteira.

Saíram da padaria com três sonhos. A grana estava curta, foi o que deu para comprar. Colocou o pacote dentro de uma sacola de supermercado, pois ainda chovia. Não com a mesma intensidade, mas certamente poderia molhar bastante. “Vou tomar um banho quente”, disse ela assim que chegaram em casa. “Claro. Enquanto você relaxa, preparo nosso chá e dou uma ajeitada na cozinha. Não sabia explicar o que sentira naquele momento, entretanto, compreendera que havia algo errado ali.

Como sempre, acordara bem tarde, após uma longa noite de filmes, chá e música. Por um momento imaginara que a ligação não existira. Errado. O número permanecera no telefone. Por sorte, a conhecia muito bem, após anos de convivência. Sabia que, se fosse ela, por ser uma pessoa metódica, ligaria novamente às 2h da madrugada, com os mesmos três toques. A noite finalmente chegou. Não foi capaz de fazer nada até o horário estipulado.

“Qual o seu problema? Será que não consegue ser feliz?”, declarou ele quando ela saiu do banho, ainda enxugando o cabelo com uma toalha branca. “Lá vem você com esse papo de novo. Não é uma questão de felicidade ou infelicidade...”, disse ela. “Vamos viver, isso não e o bastante para você? Para que essa cobrança toda?”, finalizou. Puxou-a pelo braço e, sem hesitar, disse: “Você tem outro, não tem? Vai, fala logo.” Com toda frieza do mundo, respondeu: “Você é patético. Tornou-se o que eu mais desprezo nos seres humanos. Tudo aquilo que pensara ter encontrado em ti não serviu para nada.” Vestiu-se rapidamente e bateu a porta. Não levou nada, apenas a bolsa vermelha e um caderninho que usava para anotações.

O relógio da parede da sala mal marcara o horário previsto, quando o celular tocou. Ainda faltavam 5 minutos para às 2h da manhã. Deixou dar o segundo toque para atender, afinal não queria demonstrar que esperara pela ligação. “Alô”, disse com a voz um pouco trêmula. Não obteve resposta e após alguns segundos a ligação caiu. Pensara em muitas coisas depois do ocorrido. “Será que minha voz atrapalhou. Vai ver ela pensou que estivera dormindo, que não a amo ou, quem sabe, que estivera com outra pessoa”. Passou a esperar por sua ligação todas as noites. Não saia de casa naquele horário, não dormia e muito menos arrumava alguém. Elaborara estratégias mirabolantes para ouvir sua voz. Tivera convicção que era realmente ela.

Com o passar do tempo, desistira de tentar ouvir sua voz. Era mais uma espécie de desabafo, de tormento, que qualquer outra coisa. A pessoa também não desligará o telefone rapidamente. Aprendera a escutá-lo.

Por longos 10 anos foi isso que aconteceu. Sempre recebera a ligação por volta das 2h. Até chegara a desconfiar que não fosse ela. Poderia ser simplesmente alguém disposto a ouvi-lo, que, na solidão da noite, também esperara por uma ligação, mas foi à frente e discou qualquer número. No entanto, para ele, era mais confortável manter o mesmo pensamento: ela o amara, mas era incapaz de dizer algo, de pedir desculpas. A ele, portanto, só cabia esperar a ligação e relatar com angústia o rumo que sua vida tomara sem ao menos dar-lhe outra oportunidade.

Seu mundo

Acordara banhado de suor. Já era bem tarde. Tinha fortes dores no corpo. Decidiu ficar na cama por mais algumas horas. Quem sabe assim aquele sentimento horrível iria para bem longe. Não queria levantar. Estava cansado do mundo, das pessoas, do convívio em sociedade.

Do seu leito podia fazer as coisas como queria, como sempre planejara. Atribuía à vida sua própria interpretação. Não precisava de alguém para lhe dar ordens e dizer o que é certo ou errado. Naquele cantinho, podia cantarolar, reinventar o mundo, esquecer os preconceitos, acabar com as diferenças, amar, ser amado e, por um único momento, esquecer dos seres humanos.

Acreditara veemente na falta de capacidade das pessoas. Estava cansado dos diálogos imprecisos, tudo era completamente descartável. Pensara que o mundo passava por uma enorme crise. O problema, certamente, não era com ele, mas com os indivíduos. A tecnologia avançou tanto, o acesso à informação era tão veloz, que os humanóides se esqueceram de evoluir mentalmente, de perceberem suas limitações.

Ali, no seu cantinho, tudo era diferente. As coisas eram reconstruídas passo a passo, sem apego material, sem restrições ou verdades absolutas. Ali, naquele mesmo cantinho, via o mundo de outra forma, com seus próprios olhos. Julgava e questionava com uma visão subjetiva e libertária.

Não queria que ninguém se intrometesse. O acesso era restrito, muito restrito. Tinha consciência que a entrada de algumas pessoas poderia contaminar o espaço que criara. Proibiu a entrada dos limitados. Depois, abominou a presença dos hipócritas. Por último, restringiu o acesso dos incapazes de amar. Era simplesmente seu mundo, sua maneira, seus sentimentos.

Saudades...

Analiticamente falando, são três as variáveis da saudade. A primeira delas, talvez a mais genuína, porém rara de ser alcançada, é aquela similar a um sentimento bom. Quando você sente falta de algo, recorda-se positivamente das coisas, mas, por instinto, não quer que aquilo volte a acontecer. Acredita que, de tão pura, de tão saudável, o passado seja o lugar propício para deixá-la guardada. Há, indubitavelmente, a saudade que aperta a garganta, que, de tão latente, profunda, fere seu coração. Você, mais do que tudo, precisa ter novamente, no entanto, sabe que não terá, afinal, já passou. Muitas vezes acaba se crucificando. Pede a Deus uma nova chance de reviver, de aproveitar melhor. O nível de egoísmo do ser humano reserva ainda outra variável. Trata-se da mais cruel e impetuosa. É a saudade daquilo que, de fato, não aconteceu. Ora, isso quebra a ordem natural das coisas. Sentir falta de momentos que não chegaram ao fim. De tanto criar ilusões, de tanto desprezar o que se tem, sofre por antecipação. Não dá a chance de aproveitar os momentos reais até o último instante para assim transformá-los na primeira variável da saudade, a chamada positiva. Essa talvez seja a saudade mais difícil de suportar.

A fobia social


Nunca tivera tanto medo de sua mente como naquele dia. A raiva tomara conta de si. As pessoas com quem vivera já não o compreendiam. As que nunca tinham visto seu rosto também não eram suficientes para amenizar tantos momentos de angústia.

O médico não dera outra opção. O diagnóstico foi certeiro: “És uma doença rara. Cientistas do mundo todo tentam há anos descobrir a cura, mas nunca chegaram a algo relevante. O Sr. ficará trinta dias sem nenhum contato. Deve permanecer isolado. Qualquer tipo de relação pode piorar seu estado e trazer consequências irreparáveis”.

A princípio, não se importou. Precisará mesmo ficar sozinho, afinal, foram três fortes crises em menos de duas semanas. Sua mente não suportara o convívio em sociedade. Sabia que somente as recomendações médicas podiam surtir algum efeito.

Escolhera uma casinha na Rua do Encomendador, na região norte. O vento lá soprara com uma intensidade desproporcional para a época. Talvez isso lhe trouxesse bons ares.

Todos haviam se mudado dali desde que a ventania passou a ser algo constante na vida da população.
O abrigo escolhido não era lá grande coisa. Um armário com algumas roupas, uma cafeteira e um caderno em branco.

Todos os dias de isolamento seriam relatados naquele pequeno pedaço de brochura. Nunca o mês de abril parecera ser tão longo.

O bilhete

Estava decidido. Colocou tudo que precisava na mala e a fechou sem qualquer tipo de medo ou arrependimento. Iria mesmo partir naquela tarde. Sempre admirou o mês de abril, aquele em que começa o outono, termina o verão e tudo torna-se um pouco mais real. Escolheu aquilo, pois não queria mais ilusão ou utopia.

Na bagagem, quatro camisas xadrez, uma bermuda surrada e um velho aparelho de mp3. Separou alguns livros, que não pudera ler por falta de tempo e seu melhor amigo: o inseparável violão.
Antes, no entanto, não podia sair sem escutar aquela música, a sua música. Pegar a estrada sem ouvi-la era como se estivesse fugindo de sua penitência.

Ligou o som, cantou, chorou: passara anos decorando minuciosamente cada estrofe. Deixou o aparelho ligado no último volume para não se esquecer.
Não sabia o destino, o que iria fazer ou, sequer, quando tempo demoraria para voltar. Apenas tinha em mente que precisava ir. Aquela vida não fazia mais sentido: o emprego, a faculdade, a namorada. Não queria nada.

Começaria do zero. Apenas ele, o mar, e as poucas coisas que não conseguia viver sem.
No bolso esquerdo da blusa branca que usava, um recado:


“Volte, por favor. Ligue assim que puder.
Eu te amo”.

500 dias com ela

500 dias com ela. Foi tudo que ele precisou para saber que coincidência é apenas coincidência. O suficiente para aprender que as coisas acontecem por acaso. Que por trás dos planos e da necessidade desesperadora de ter o outro, existem os sentimentos genuínos.
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Era apenas mais um início de ano. Seu coração, duro como uma pedra, já não suportava ficar tanto tempo congelado.
A procura incessante era traduzida num olhar frio, na dureza das palavras e na expressão carrancuda. Simplesmente ao contrário do que todos faziam. Proposital. Quem estivesse disposto a quebrar tal encantamento, seria recompensado com o mais puro dos presentes.
Um sorriso preciso, uma doçura incontrolável. Máscara perfeita e duradoura para alguém habituado à infelicidade e desconstrução.
Aprendeu, finalmente, a amar. Fez coisas que, a princípio, pareciam sinônimos da insanidade.
Perdoou, pediu, implorou, gostou, fez, se arrependeu, refez, chorou, falou e não falou.
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Já faz mais de 500 dias. Nunca acreditei em filmes.

O problema em ser medíocre

Quando garoto, detestara a mediocridade. Os medíocres nunca foram dignos de algum tipo de atenção ou reconhecimento.

Estar acima ou abaixo da média, para ele, era uma questão de honra.
Se por um lado tivera facilidade com as palavras, odiara os números, os cálculos, a ciência da exatidão. "A vida não possui linearidade, então o porquê dessa lógica detestável e repleta de contas?", pensara.

Gostara da complexidade, da ambiguidade, das conotações, das contradições, das mais belas formas de expressar sentimentos. Gostara, portanto, das palavras.
Desde então, deixara claro seu ódio pelos números e fizera questão de ser o pior, de não se esforçar. Não decorara tabuadas, não aprendera regra de três, faltara a todas as aulas de matemática.

Decidira por decorar o dicionário, escrever poemas. Investira na complexidade das palavras, no segredo da escrita. Transmitira seus sentimentos para o papel e esquecera dos números.

Odiara cada vez mais os garotos medíocres. Eles faziam tudo dentro de suas limitações. Não eram os piores em nada, e muito menos os melhores.
Dizia: "Os medíocres são incapazes de fazer algo com excelência ou, pelo menos, de serem apedrejados em praça pública por sua incompetência."
Decidira, então, três coisas:

1- Não tocara mais violão. Não era bom o bastante para ser o melhor e seu nível técnico não permitira ser o pior;
2- Não falara mais outro idioma. A língua portuguesa tomara todo seu tempo;
3- Não amara mais;