500 dias com ela

500 dias com ela. Foi tudo que ele precisou para saber que coincidência é apenas coincidência. O suficiente para aprender que as coisas acontecem por acaso. Que por trás dos planos e da necessidade desesperadora de ter o outro, existem os sentimentos genuínos.
========================================================================
Era apenas mais um início de ano. Seu coração, duro como uma pedra, já não suportava ficar tanto tempo congelado.
A procura incessante era traduzida num olhar frio, na dureza das palavras e na expressão carrancuda. Simplesmente ao contrário do que todos faziam. Proposital. Quem estivesse disposto a quebrar tal encantamento, seria recompensado com o mais puro dos presentes.
Um sorriso preciso, uma doçura incontrolável. Máscara perfeita e duradoura para alguém habituado à infelicidade e desconstrução.
Aprendeu, finalmente, a amar. Fez coisas que, a princípio, pareciam sinônimos da insanidade.
Perdoou, pediu, implorou, gostou, fez, se arrependeu, refez, chorou, falou e não falou.
========================================================================
Já faz mais de 500 dias. Nunca acreditei em filmes.

O problema em ser medíocre

Quando garoto, detestara a mediocridade. Os medíocres nunca foram dignos de algum tipo de atenção ou reconhecimento.

Estar acima ou abaixo da média, para ele, era uma questão de honra.
Se por um lado tivera facilidade com as palavras, odiara os números, os cálculos, a ciência da exatidão. "A vida não possui linearidade, então o porquê dessa lógica detestável e repleta de contas?", pensara.

Gostara da complexidade, da ambiguidade, das conotações, das contradições, das mais belas formas de expressar sentimentos. Gostara, portanto, das palavras.
Desde então, deixara claro seu ódio pelos números e fizera questão de ser o pior, de não se esforçar. Não decorara tabuadas, não aprendera regra de três, faltara a todas as aulas de matemática.

Decidira por decorar o dicionário, escrever poemas. Investira na complexidade das palavras, no segredo da escrita. Transmitira seus sentimentos para o papel e esquecera dos números.

Odiara cada vez mais os garotos medíocres. Eles faziam tudo dentro de suas limitações. Não eram os piores em nada, e muito menos os melhores.
Dizia: "Os medíocres são incapazes de fazer algo com excelência ou, pelo menos, de serem apedrejados em praça pública por sua incompetência."
Decidira, então, três coisas:

1- Não tocara mais violão. Não era bom o bastante para ser o melhor e seu nível técnico não permitira ser o pior;
2- Não falara mais outro idioma. A língua portuguesa tomara todo seu tempo;
3- Não amara mais;