

Esquecera da sensação do choro. A única coisa que se recordara com precisão era do gosto salgado entre os lábios. As lágrimas não tinham um sabor adocicado, como muitos diziam. Eram como a água do mar. Foi a associação mais pertinente, talvez a única, que lhe veio à mente naquele momento. Tentara explicar aos outros, sem sucesso, o que sentia. Uma secura incontrolável na boca. Gotículas salgadas se encarregavam de amenizar tamanho desconforto. Quando as gotas chegavam ao fim, entretanto, tudo voltava ao normal e os lábios, grossos como os da mãe, estavam novamente revigorados. Não soubera exatamente o que isso significava. Nunca se atentara aos olhos e o que emergia deles nos momentos de profunda solidão. Azuis, verdes ou seriam castanhos mais claros? Também não tinha certeza da cor, há anos não os via no espelho. Lembrou-se da infância. Era o caçula de cinco irmãos. Logo, aprendera a controlar o choro e a segurar a emoção. Lágrimas. Não se recordara com exatidão do significado real da palavra. Ouvira na escola ou teria lido no dicionário, quem sabe. “Chorão”, gritavam as crianças naquela tarde ensolarada de outono. Os ventos secos e cortantes logo soprariam. Sentiu-se culpado e impotente. Encabulara os pais, os irmãos e os familiares ao externar tamanha tristeza. Sentou-se no chão do quarto soturno. Refletiu sem o sentimento de culpa do amanhã. Seria a última vez que derramaria lágrimas. Para sempre. A tristeza latente e os olhos vermelhos, já inchados pelo excesso de líquido, não mais o incomodariam. Aprendera a reconhecer a tristeza pelo gosto seco e salgado que perdurava nos lábios. O único vestígio da dor seria aquele, prometera a Deus. Deus. Se ele não quisesse que você chorasse, talvez não tivesse lhe dado lágrimas, questionara por alguns momentos. Já se esquecera dos dogmas. Aquele era o momento de ignorá-los e estabelecer suas próprias regras. As regras de sua condição insignificante perante o criador da humanidade. Deus. Sentira novamente os lábios salgados. Não se lembrara mais da promessa.


Quando ingressei na faculdade, na metade de 2007, pensei que todos os problemas da minha vida, ou grande parte deles, estariam resolvidos. Em quatro anos, certamente, eu seria mais inteligente e teria as respostas para as questões mais intrigantes. É claro que eu refleti sobre uma possível estabilidade financeira. Afinal, todo esse tempo com as caras nos livros, passando noites e mais noites estudando, trariam resultados expressivos. Nada de muito luxuoso: um carro simples, quem sabe, ou um apartamento próprio.
A mulher da minha vida, finalmente, daria as caras. Depois de algumas decepções, a tal felicidade amorosa estaria bem ali, a poucos metros. Como qualquer outro jovem de 19 anos, imaginei que minha vida sexual passaria por grandes avanços! Esperara ansiosamente por festas e, claro, as chamadas orgias universitárias!
O plano, até então, era perfeito. Não que eu tivesse a intenção de desonrar o nome da família, encher a cara toda semana e, no final das contas, sair com o diploma nas mãos. Longe disso. Queria estudar, adquirir conhecimento, ser um bom jornalista e aproveitar essa época tão importante.
Só havia um problema. Eu tinha me esquecido de compartilhar o plano com os principais envolvidos nele: os professores carrascos, que me crucificavam por erros de vírgula e concordância, as belas garotas do interior, que eu jurava ser mais esperto, e os teóricos esquerdistas, que pregavam discursos idealistas bastante convincentes em pleno século 21.
O problema do calouro é que ele acha que ganhou na Mega-Sena quando entra na faculdade. Pensa que suas angústias, até então imensuráveis, chegaram ao fim e não há mais nada para se preocupar. O mundo é muito pequeno para todos os seus desejos e anseios. Doce engano.
De qualquer forma, demorou um bom tempo para perceber quais seriam os benefícios da faculdade em minha vida. O ensino superior, primeiramente, me fez pensar de outro jeito, a enxergar as coisas de forma diferente, direcionando meu senso crítico.
A faculdade não me fez jornalista. Fez-me um ser humano mais completo e racional. A faculdade me trouxe maturidade suficiente para aprender a lidar com as diferenças, a serenidade inigualável para compreender o próximo e, acima de tudo, competência inexaurível para ouvir.
