Carta aos desesperados

Escrever no silêncio da madrugada foi a única forma que encontrei para aliviar a dor latente de minha inquietante alma. Jogar as palavras assim, meio sem jeito, de maneira desconexa, tornou-se aos poucos o melhor remédio. É como se acumulasse os problemas do mundo sobre meus ombros e, ao redigir, todos eles fossem solucionados.

Sinto-me como um redator de sentimentos, que, com palavras, gestos e olhares acumulados, transcreve os anseios do mundo. Absorvo cada uma das sensações. Arrisco-me a dizer que sinto algumas delas. Quando já não suporto mais tamanha sensibilidade, despejo o conteúdo em palavras simples, em frases curtas, em posicionamentos contraditórios.

Escrever sobrecarregado nunca foi um problema. Muito pelo contrário, sempre foi a solução. Talvez o gesto mais nobre que a vida me concedeu para me manter vivo. Um presente escolhido a dedo com o intuito de retribuir minha existência.

Não sentir com a mesma intensidade significa não ter uma razão para existir.

Isso, até certo ponto, tem acontecido com frequência. Talvez tenha perdido esta habilidade. Porém, enquanto existir uma pontinha de sensibilidade, enquanto localizar olhares desesperados no meio da frenética multidão e enquanto enxergar rostos ávidos por uma simples palavra, continuarei a escrever.

Tens aqui minha palavra. Tens aqui mais um texto assinado por mim.

1 comentários:

Não desperdice, jamais, esse "dom"!
Escrever é criar uma ponte com a alma, é trilhar caminhos sem certezas.

É a possibilidade de guardar, fisicamente, aquilo que a instantaneidade faz questão de destruir.

Escreva. E não tenha medo do resultado.

 

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