O dia em que encontrei George Harrison


- Hey, George, trouxe um bolo, cara. É algo simples, nada de muito sofisticado.

- Quem é você? Mais um fã, aposto...

- Bom, não vou negar que te admiro bastante.

- Ok, eu era seu beatle favorito?

- Na verdade, não. Sempre gostei mais do Paul, mas não me interprete mal.

- Você é bem sincero, eu gosto disso. Senta aí, cara. E esse violão?

- Comprei há pouco tempo. É um Giannini trovador, série estúdio.

- Legal. Toca desde quando?

- Desde 2005, mais ou menos. Conhece essa aqui? (tiro o riff de uma música do Buddy Holly).

- Você está fazendo o acorde errado. Tenta na sétima casa, fica melhor (sorri, meio sem jeito).

- Assim?

-Sim. (puxa um cigarro)

- Cara, você vai mesmo fazer isso?

- Eu já estou morto, relaxa.

- Eu sei. Porra, eu lembro direitinho quando aconteceu. E olha que nem te conhecia direito.

- É mesmo?

- Sim, foi em 2001. Estava no carro com o meu pai ouvindo música. O locutor entrou no ar e disse que você havia morrido de câncer no pulmão. Logo em seguida tocou While My Guitar Gently Weeps.

- É uma bela canção, mas o Calpton rouba a cena com aqueles solos (o mesmo sorriso encabulado).

- Eu não acho. A força da música está na sua voz. E todo mundo sabe que você trouxe o Eric para irritar o John e o Paul.

- Pode ser. Você conhece muita coisa. Não vai fazer aquela pergunta clássica?

- Qual?

-"Por que os Beatles acabaram?". Até eu me perguntaria isso...

- Se a banda não tivesse acabado como acabou, vocês não seriam o que são hoje. Pelo menos para mim.

- Como assim?

- Acabou porque tinha de acabar. Não fico me lamentando.

- Falando desse jeito parece até que você sabe mais sobre mim do que eu mesmo.

- Não duvide! Você não vai comer o bolo?

- Por que trouxe isso?

- 25 de fevereiro é seu aniversário, não?

- É 24, cara.

- Eu nunca tive certeza se era 24 ou 25.

- Nem eu, para ser sincero. De qualquer forma, obrigado pelo confeito.

- Vou nessa, George. Valeu pelo papo.

- Vai lá, cara. Gostei de você. Passe por aqui qualquer dia para fazermos um som.

- Com certeza. Caramba, tocar com o George Harrison, heim?

- Sem tietagem (mais um sorriso).

- Pode deixar. Feliz aniversário.

- Hare Krishna.

Nunca soube exatamente quanto e onde o encontrei. Também nunca soube se aquilo era, de fato, verdadeiro ou apenas um sonho. Nunca mais tirei o violão das costas. Ele estará sempre comigo. Não importa aonde vá.

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