O gosto do choro

Esquecera da sensação do choro. A única coisa que se recordara com precisão era do gosto salgado entre os lábios. As lágrimas não tinham um sabor adocicado, como muitos diziam. Eram como a água do mar. Foi a associação mais pertinente, talvez a única, que lhe veio à mente naquele momento. Tentara explicar aos outros, sem sucesso, o que sentia. Uma secura incontrolável na boca. Gotículas salgadas se encarregavam de amenizar tamanho desconforto. Quando as gotas chegavam ao fim, entretanto, tudo voltava ao normal e os lábios, grossos como os da mãe, estavam novamente revigorados. Não soubera exatamente o que isso significava. Nunca se atentara aos olhos e o que emergia deles nos momentos de profunda solidão. Azuis, verdes ou seriam castanhos mais claros? Também não tinha certeza da cor, há anos não os via no espelho. Lembrou-se da infância. Era o caçula de cinco irmãos. Logo, aprendera a controlar o choro e a segurar a emoção. Lágrimas. Não se recordara com exatidão do significado real da palavra. Ouvira na escola ou teria lido no dicionário, quem sabe. “Chorão”, gritavam as crianças naquela tarde ensolarada de outono. Os ventos secos e cortantes logo soprariam. Sentiu-se culpado e impotente. Encabulara os pais, os irmãos e os familiares ao externar tamanha tristeza. Sentou-se no chão do quarto soturno. Refletiu sem o sentimento de culpa do amanhã. Seria a última vez que derramaria lágrimas. Para sempre. A tristeza latente e os olhos vermelhos, já inchados pelo excesso de líquido, não mais o incomodariam. Aprendera a reconhecer a tristeza pelo gosto seco e salgado que perdurava nos lábios. O único vestígio da dor seria aquele, prometera a Deus. Deus. Se ele não quisesse que você chorasse, talvez não tivesse lhe dado lágrimas, questionara por alguns momentos. Já se esquecera dos dogmas. Aquele era o momento de ignorá-los e estabelecer suas próprias regras. As regras de sua condição insignificante perante o criador da humanidade. Deus. Sentira novamente os lábios salgados. Não se lembrara mais da promessa.

2 comentários:

Curti mas não foi tão "arrebatador"...se é que vc entende a minha maldade!rs

 

Adoro a sensibilidade que você deposita nos seus textos. Preciso repetir que sou sua fã? Ok. Repito até você acreditar:

John, sou sua fã, de verdade!
Beijo,

 

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