Os campos de morangos




Desde pequeno, sempre ouvira falar daquele local, os campos de morangos. Lá, as pessoas não se preocupavam com muitas coisas. Tudo fugia do óbvio e driblava, ao mesmo tempo, a realidade.

Decidiu conhecer o lugar assim que as pressões no mundo real começaram a torturá-lo cruelmente. Até então, a necessidade de ser alguém na sociedade não tinha tanto peso. Com o passar dos anos, entretanto, a ambição pelo rótulo e a busca frenética pelo pertencimento passaram a corrompê-lo.

Isso afetara sua criatividade, sua maneira única de ver o mundo e enxergar as pessoas. Perdera aos poucos sua sensibilidade. Não pensara duas vezes quando teve a oportunidade de ir até os campos.

As flores tinham um cheiro suave, odor de morangos frescos, apesar de nunca ter sentido tal fragrância. O céu era límpido, sem uma única nuvem, e completamente azul. Nunca anoitecera. O sol estava sempre presente, mas não fazia calor. As pessoas não sabiam os nomes uma das outras. Apenas compartilhavam o mesmo espaço, a mesma sensação.

Uma música leve. Um violão de seis cordas, talvez. Não tinha certeza, o som ficara cada vez mais distante e abafado. A grama desaparecera subitamente. O vento cortante aparecera pela primeira vez. Sua visão, antes clara e alaranjada pela bela aparição do sol, tornara-se escura, lutuosa e soturna. Todos já o reconheciam pelo nome quando decidiu ir embora. Voltaria em outra hora.

Nunca se esquecera daquela sensação, daquele sentimento. Queria ficar ali definitivamente. O mundo real já não lhe pertencia. Nada mais fazia sentido. A obsessão desenfreada por tornar-se alguém nunca estivera tão deturpada e fora de contexto.

Fez a mala. Colocou algumas peças de roupa. Camisetas brancas, um tênis velho, uma par de meias, uma calça jeans manchada e um blazer preto, que tinha o segundo botão quebrado. Deixara um bilhete para o mundo na porta do quarto. Mesmo com as iniciais ilegíveis, devido à tinta ressecada da caneta, a mensagem era clara. Não voltaria mais.

Os campos de morangos esperavam por ele. As pessoas, trajadas de branco, o aguardavam para o ritual de boas-vindas.

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