Seu mundo

Acordara banhado de suor. Já era bem tarde. Tinha fortes dores no corpo. Decidiu ficar na cama por mais algumas horas. Quem sabe assim aquele sentimento horrível iria para bem longe. Não queria levantar. Estava cansado do mundo, das pessoas, do convívio em sociedade.

Do seu leito podia fazer as coisas como queria, como sempre planejara. Atribuía à vida sua própria interpretação. Não precisava de alguém para lhe dar ordens e dizer o que é certo ou errado. Naquele cantinho, podia cantarolar, reinventar o mundo, esquecer os preconceitos, acabar com as diferenças, amar, ser amado e, por um único momento, esquecer dos seres humanos.

Acreditara veemente na falta de capacidade das pessoas. Estava cansado dos diálogos imprecisos, tudo era completamente descartável. Pensara que o mundo passava por uma enorme crise. O problema, certamente, não era com ele, mas com os indivíduos. A tecnologia avançou tanto, o acesso à informação era tão veloz, que os humanóides se esqueceram de evoluir mentalmente, de perceberem suas limitações.

Ali, no seu cantinho, tudo era diferente. As coisas eram reconstruídas passo a passo, sem apego material, sem restrições ou verdades absolutas. Ali, naquele mesmo cantinho, via o mundo de outra forma, com seus próprios olhos. Julgava e questionava com uma visão subjetiva e libertária.

Não queria que ninguém se intrometesse. O acesso era restrito, muito restrito. Tinha consciência que a entrada de algumas pessoas poderia contaminar o espaço que criara. Proibiu a entrada dos limitados. Depois, abominou a presença dos hipócritas. Por último, restringiu o acesso dos incapazes de amar. Era simplesmente seu mundo, sua maneira, seus sentimentos.

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